terça-feira, 27 de julho de 2010

Rua 15

- Boa noite, dama. Tá quanto?
- Bom, pelo conjunto da obra e pelas coisas que posso realizar, é 50 mangos para você, gato.
- Tudo isso? Nossa, que sacanagem!
- Sim, a sacanagem é uma das ferramentas de trabalho que uso como forma de incentivo e auto-promoção.
- É, admito que o seu conjunto é realmente admirável. Mas é um preço que não penso em pagar.
- Pensar demais atrapalha, cavalheiro. Ok, você que sabe. É pegar ou conversar.
- Não seria "pegar ou largar"?
- Seria? Não importa. Se quiser conversar é de graça.
- Não costumo conversar muito com pessoas desse meio, sabe, mas já que é de graça, até injeção dada.
- Não seria "injeção na testa"?
- Na testa? Isso não faz o menor sentido e além do mais deve doer. Então, do que vamos falar?
- Família, política, dinheiro, amor, estudos, trabalho. É só escolher um desses temas clichês para começarmos um papo mecânico.
- Não tenho família, odeio política, não pretendo te pagar 50 reais, perdi meu amor em uma dessas esquinas, já sou formado há algum tempo e o meu trabalho tem lá as suas diversões. Foi mecânico demais?
- Não, foi resumido. Então que tal falarmos sobre algo que provavelmente você deve desconhecer ou nunca viveu?
- Ótimo. Na verdade, tenho uma dúvida. Você não sente frio? Porque com poucas peças de roupa assim, qualquer ser humano normal sentiria frio.
- Não, na verdade sou à prova de fenômenos naturais.
- Essa é boa. Ouvi dizer que uma boa dose de pinga mata o frio também, entre outras coisas.
- Fique você sabendo que não posso beber no trabalho. É contra as regras.
- Tá, mas me explique melhor esse lance de ser "à prova de fenômenos naturais".
- Quando chove, eu abro o guarda-chuva; quando venta, eu entro em algum dos carros que param por aqui; e quando neva... bom, nunca neva, na verdade.
- Assim não vale. Você não é "à prova dos fenômenos", apenas utiliza artifícios que te ajudam a se proteger deles.
- Você que não entendeu o sentido real do contexto, bobinho.
- Tudo bem. E desde quando existem regras? Pensei que nesse "mundo" não existisse isso. É como dizem: "Tudo liberado por R$30".
- Você continua com esse ar de arrogância e superioridade, não é mesmo? Primeiro: sim, existem regras. Segundo: R$30 não paga nem a primeira etapa do serviço. E terceiro: de que "mundo" você está falando afinal? Porque eu só conheço um e creio que é o mesmo para nós dois.
- Eu não estou com nenhum ar de arrogância nem superioridade.
- Claro que não. Só de prepotência, certo? Já que não se cansa de afirmar que existe um mundo feito só para você e para as pessoas que pensam futilmente dessa maneira.
- Você está me ofendendo. Além do mais, eu poderia pagar quanto eu quisesse por esse seu corpinho e pelos seus serviços medíocres que qualquer outra pode fazer no seu lugar, mas já vi que você não vale nem dez centavos. Vou embora porque eu ganho mais do que conversando com mulheres como você.
- Sim, sim. Acredito que o cliente sempre tenha razão, porém antes que você vá, a conta deu 15 reais. Conversar é de graça, mas gastar meu tempo tem preço.

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